Fragmentos

Saturday, October 07, 2006

O direito de olhar pro próprio umbigo (maio de 2006; no blog DROIT TEMPORAIRE)

Essa coisa de umbiguismo me traz sempre a cabeça que o umbigo narrador acaba preso às palavras, ou às ações ou às crônicas que pretende relatar. Quero dizer que, a vida do cara acaba sendo moldada pelas narrativas que ele pretende expôr: pensar em fazer já pensando em escrever; fazer racionalizando as atitudes em palavras; acordar pensando em parágrafos, não dar tempo para que o tempo dê conta das situações mas propor justamente biópsias diárias.

Umbiguismo para quem não sabe é um adjetivo disfarçado de substantivo, que se refere a autores de blogs que não disfarçam nem um pouco que ficção e "vida real" se misturam, se completam, se fundem. A que eu conheço mais é a Clarah Averbuck, que assina a TPM e lembrei dela porque dias atrás, aliás num vôo da VARIG, assisti a um documentário GNT (acho) sobre rock e ela foi uma das comentaristas sobre a "atitude Rolling Stones". Só pra não perder o fio da meada, ela disse que os caras já deveriam ter morrido, na cena rock é pra morrer cedo. Algo assim que na hora me pareceu interessante mas pensando bem pode ser meio idiota. Mas enfim, a mulher pública me lembra a geração beat, apesar de eu não achar que por isso vale a pena pagar pau, esbanjar elogios, virar fã. Ela é uma mulher, escreve, demonstra personalidade, ponto.

Uma coisa que me irrita é essa tal de demonstraçào de personalidade.
Cada vez mais me divirto ao abrir o orkut e ver meninas mais novinhas por exemplo
legendarem suas fotos de album com "nós juntas somos atitude!", ou ver algum testimonial dizendo "você é uma menina de personalidade"... essas coisas bobinhas que nunca vão deixar de existir, mas quando repetidas centenas de vezes passam a irritar em algum grau.. Afinal, o que é personalidade, ou ter personalidade? É dizer o que pensa? E se vc pensa só bostas? E se pra alguém ter personalidade é simplesmente ter acessórios fortes na vida, tipo Fernanda Young?
Pra mim, e aí eu concordo com a Clarah Averbuck no bate-papo em que participou na revista Trópicos quando diz que a Fernanda Young é mulher de publicitário, tatuagens, um apartamento em Higienópolis, péssima escritora. Amar a Madonna diz alguma coisa? Sei lá, pra mim começar um texto falando à "mulherzinha" que há em mim, ou em vc, ou nela, nÃo quer dizer nada....sinceramente. Usar tatuagens para começar é ridículo: usa para quê?

Mas enfim, essa falta de complexidade não me comove... gente cheia de atitude (?) e vazia em densidade (ou seja lá qual o antônimo de denso)...

Enfim, comecei querendo dizer que há prazer em escrever. Que há um sentido terapêutico nisso.
E é por isso que estou usando essa ferramenta aqui, o blog. Quero escrever pq preciso escrever, me pediram para escrever: devo manter diários sobre sensações, pensamentos; ficar atenta à mudanças no meu comportamento;a acompanhar altos e baixos...
Não interesse o porque nem o para quem. No fundo isso pra mim significa disputar um direito com a inércia. Sei lá, apesar de eu estar aqui falando em primeira pessoa, escrevo para terceiras pessoas, que talvez sejam ou estejam em mim mesma. Redijo as "coisas" imaginando furtivamente que alguém está lendo, que há seres ou um ser prestando atenção nisso daqui.

Quem tem interesse em ler não vai acessar isso aqui, até que eu sistematize e encaminhe, provavelmente em meio restrito e formal.
Até que ponto escrever já não é um esforço enorme? O meu limite de repressÃo pela inércia já foi bem alargado, pelo simples fato de eu me permitir, digamos assim, abrir esse espaço e dizer sei lá pra quem que eu tô aqui, tentando racionalizar meu dia-a-dia, ou tentando acompanhar-me com alguma cronologia.

Mas não dispenso de forma alguma a noção de que escrever é de alguma forma se prender à escrita, ao hábito de escrever, à necessidade de palavrear o que vivo, de vivem em função de parágrafos. Para mim é, nesse momento. E eu tenho que me esforçar justamente para tentar no meio desse condicionamento pela palavra, me libertar da inércia que me domina.

Venho vivendo sem saber o que é autoconhecimento.
Nego isso. Coisa de boutique, de gurus indianos, de gente que acredita em energias cósmicas, que lê Profecia Celestina, que para citar livros no orkut descreve a prateleira ridícula de best sellers estilo Dan Brown misturada a livros de faculdade e I love Feng Chui, de gente que se acha de atitude porque responde de forma dura, blá blá blá.
Autoconhecimento é uma coisa esquisita. Nego. Repudio.

Porém me vejo cada vez mais necessitada de ...
entender que construção social sou eu.

PErguntas adolescentistas como quem sou eu? para onde vou? o que quero? que já foram alimento de muitas crises existencias anos atrás, são agora refeitas a mim por mim mesma, já que quando me olho no espelho não sei direito o que quero, porque quero, se quero, quando quero. Esotu à mercê... me sinto assim...

Posso dizer que escrever agora vai ganhar esse sentido... o de citar menos, investir mais em conteúdos "profundos", digamos assim, que podem me ajudar a ganhar foco.
Apesar do interesse frenético em conhecer coisas novas, ficar sabendo de variedades inúmeros, comentar sobre tudo, ganhar novas sinapses; tenho a nítida sensaçào de que estou construída sobre fragmentos ... talvez destroços.

Esse orkut por exemplo me diz muito sobre mim.. sobre esta fase minha.
Description, movies, books... tudo tão cool, tão carismático, tão anti-crise...
sei lá, isso me parece uma coisa morna demais, austera demais.

Tá, vou confessar, me sinto uma cópia.
uma cópia de frases que vi por aí, de letras de músicas que gosto, de autores de livros que me interessaram, de personagens ou musas inspiradoras de quadros que me foram apresentados ou comentados. me sinto uma colcha de retalhos pinçados em diferentes mundos e momentos.

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