Dessubjetivar
Sabemos que as ciências sociais, na ideologia oficial, são todas ciências provisórias, precárias, de segunda classe... Toda ciência deve se mirar no espelho da física...
O que significa isso?
Significa guiar-se pela pressuposição de que quanto menos intencionalidade se atribui ao objeto, mais se o conhece. Quanto mais se é capaz de interpretar o comportamento humano em termos, digamos, de estados energéticos de uma rede celular, e não em termos de crenças, desejos, intenções, mais se está conhecendo o comportamento. Ou seja, quanto mais eu desanimizo o mundo, mais eu o conheço.
Conhecer é desanimizar, retirar subjetividade do mundo, e idealmente de si mesmo.
Na verdade, para o materialismo científico oficial, nós ainda somos animistas, porque achamos que os seres humanos têm alma. Já não somos tão animistas quanto os índios, que acham que os animais também têm. Mas se continuarmos progredindo seremos capazes de chegar a um mundo em que não precisaremos mais desta hipótese, sequer para os seres humanos. Tudo poderá ser descrito sob a linguagem da atitude física, e não mais da atitude intencional.
O que move o pensmaento dos xamãs, que são os cientistas de lá, é o contrário.
Conhecer bem alguma coisa é ser capaz de atribuir o máximo de intencionalidade ao que se está conhecendo. Quanto mais eu sou capaz de atribuir intencionalidade a um objeto, mais eu o conheço. O bom conhecimento é aquele capaz de interpretar todos os eventos do mundo como se fosse ações, como se fossem resultado de algum tipo de intencionalidade. Para nós, explicar é reduzir a intencionalidade do conhecido. Para eles, é explicar é aprofundar a intencionalidade do conhecido, isto é, determinar o bojetivo do conhecimento como um sujeito.
"Sejamos objetivos."
Sejamos objetivos? - Não! Sejamos subjetivos, diria um xamã, ou não vamos entender nada.
...o ideal de subjetividade encontra-se na nossa civilização confinado àquilo que Levi Strauss chamava de parque natural ou reserva ecológica no interior do pensamento domesticado: a arte. O pensamento selvagem foi confinado oficialmente ao domínio da arte; fora dali, ele seria clandestino ou "alternativo". Valorizada como seja a experiência artística, ela nada tem a ver com o experimento científico: a arte é inferior à ciência como produtora de conhecimento.
Ela pode ser emocionalmente superior, mas não é epistemologicamente superior.
O xamanismo, como a arte, procede segundo o princípio da subjetivação do objeto.
Uma escultura talvez seja a metáfora material mais evidente deste processo de subjetivação do objeto. O que o xamã faz é um pouco isso: ele esculpe sujeito nas pedras, paus e bichos, ele esculpe conceitualmente uma forma humana.

(A inconstância da alma selvagem, Entrevista, Eduardo Viveiro de Castros)

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